A Microsoft passou a oferecer portas ExpressRoute Direct de 400 Gbps, por enquanto sem disponibilidade geral: só em locais selecionados e com inscrição prévia. A notícia circulou, os slides apareceram nas apresentações e inevitavelmente alguém no seu comitê de arquitetura vai perguntar: “precisamos migrar para 400G?”
A resposta honesta: depende, e na maioria dos casos, não.
Este artigo mostra quando o upgrade genuinamente compensa e quando é puro over-engineering disfarçado de inovação.
O que mudou de fato
O ExpressRoute Direct sempre foi a opção para quem precisava de conectividade dedicada de alta capacidade, você aluga fisicamente uma porta no local de peering, sem compartilhar com outros clientes do provedor. Antes, as portas disponíveis eram de 10 Gbps e 100 Gbps.
Com a adição de portas de 400 Gbps, o cenário muda para um público bem específico: organizações que já usam ExpressRoute Direct com portas de 100G e estão chegando no limite de saturação agregada.
Se você ainda usa ExpressRoute via provedor (o modelo mais comum, onde o provedor é o intermediário), esse anúncio não muda nada para você no curto prazo.
Quando 400G genuinamente faz sentido
Existem três cenários onde o upgrade se justifica tecnicamente:
Migração massiva de dados para Azure em janela de tempo definida. Quando você está movendo um datacenter completo ou volumes de storage na casa dos petabytes e tem um prazo. Nesse cenário, throughput é o gargalo real, cada Gbps a mais encurta a janela de migração.
Cargas de HPC e treinamento de modelos de IA em escala. Clusters de GPU trocando grandes volumes de dados entre on-premises e Azure de forma contínua. Aqui o que atravessa a WAN são datasets e checkpoints de dezenas ou centenas de gigabytes, movidos com frequência. A sincronização de gradientes entre nós acontece dentro do cluster, pela rede InfiniBand, e não passa pelo ExpressRoute.
Consolidação de múltiplos circuitos 100G. Se você tem 3 ou 4 pares de portas de 100G para atender a demanda, um par de portas de 400G pode reduzir complexidade operacional e custo de portas físicas, dependendo do modelo de precificação do seu provedor de colocation. As portas do ExpressRoute Direct vêm sempre em par, e sobre elas você cria circuitos de vários tamanhos. Só pese a contrapartida: consolidar em menos portas também concentra os domínios de falha.
Quando 400G é over-engineering
Aqui está o ponto que raramente aparece nas apresentações de vendas:
A maioria das arquiteturas corporativas de aplicação não precisa de 400G, incluindo pipelines de IA generativa como os que discuto nesta série.
Um pipeline RAG (Retrieval-Augmented Generation) típico não move terabytes por segundo entre on-premises e Azure. Ele move requisições HTTP relativamente pequenas: uma query de busca vetorial, um contexto de alguns kilobytes, uma resposta do modelo. O gargalo nesses sistemas raramente é a largura de banda da conexão WAN.
Se o circuito atual de 1G, 10G ou mesmo 100G não está saturado, e você pode verificar isso com as métricas de utilização do circuito e das portas no Azure Monitor, o upgrade para 400G não vai resolver nenhum problema real. Vai apenas aumentar a fatura mensal.
Como decidir com dados, não com intuição
O processo que uso para avaliar upgrades de circuito:
1. Meça o circuito atual com granularidade adequada. No Azure Monitor, use as métricas BitsInPerSecond e BitsOutPerSecond do circuito com granularidade de 1 minuto e agregação Máximo (com 5 minutos, você perde os picos). Em ExpressRoute Direct, olhe também as métricas das portas físicas (PortBitsInPerSecond e PortBitsOutPerSecond). Connection Monitor serve para latência e perda, não para utilização. Colete por 30 dias mínimo, cobrindo ciclos de negócio completos.
# Verificar utilização do circuito via CLI
az monitor metrics list \
--resource /subscriptions/{sub-id}/resourceGroups/{rg}/providers/Microsoft.Network/expressRouteCircuits/{circuit-name} \
--metric BitsInPerSecond BitsOutPerSecond \
--interval PT1M \
--start-time 2026-08-10T00:00:00Z \
--end-time 2026-09-09T00:00:00Z \
--aggregation Maximum Average \
--output table
2. Identifique o gargalo real. Throughput saturado é diferente de latência alta. Um circuito com throughput em 40% mas com latência inconsistente tem um problema diferente, e aumentar a banda não vai resolver.
- Throughput saturado = gráfico de utilização batendo no teto do circuito de forma sustentada (não só em picos de 5 minutos)
- Problema de latência = throughput ok, mas aplicações reclamam de lentidão. Investigar roteamento, peering location, configuração de BGP
3. Projete crescimento real. Se o throughput atual é de 60% e você está crescendo 20% ao ano, você tem menos de 3 anos antes de saturar. Esse é o momento de planejar o upgrade, não quando já está saturado.
O ângulo pouco discutido: 400G e workloads de IA
Onde o 400G genuinamente entra em cena para IA é em cenários de treinamento distribuído de modelos ou movimentação de datasets de treinamento:
- Você tem um cluster de GPUs on-premises e quer usar VMs da série ND (como ND H100 v5 ou ND H200 v5) para ampliar a capacidade de treinamento
- Você precisa mover datasets de treinamento de dezenas de TB regularmente entre sua infraestrutura e o Azure
- Sua organização está construindo modelos proprietários (não apenas consumindo modelos gerenciados) e o ciclo de treino envolve grandes transferências de dados
Se sua organização está apenas consumindo modelos gerenciados (Azure OpenAI, Model Catalog) e fazendo RAG sobre documentos internos, o throughput do ExpressRoute quase certamente não é o seu gargalo. O investimento em 400G rende menos do que melhorar a arquitetura do pipeline, otimizar os embeddings ou reduzir a latência do banco vetorial.
O que fica
O ExpressRoute 400G é uma ferramenta poderosa para um problema específico: throughput agregado saturado em cenários que realmente demandam essa capacidade. Na maioria dos casos de IA generativa corporativa, o dinheiro rende mais em arquitetura do que em banda que não vai ser usada. A pergunta certa nunca é “dá para ter 400G?”, e sim “eu tenho um problema que 400G resolve?”.
Qual foi o pico real de utilização do seu circuito no último mês?