Lecionar MS Project parece simples na teoria: abra a ferramenta, mostre os menus, crie um cronograma. Mas quando a turma nunca ouviu falar em EAP, caminho crítico ou baseline, o desafio muda completamente.
O erro que quase cometi
Meu primeiro plano de aula era organizado pela ferramenta: aula 1 sobre a interface, aula 2 sobre criação de tarefas, aula 3 sobre dependências. Parecia lógico, progressão técnica linear.
O problema é que essa abordagem assume que o aluno entende por que está fazendo cada coisa. Criar tarefas é trivial. Entender por que você precisa decompor o escopo antes de criar tarefas é o que faz a diferença entre apertar botões e gerenciar um projeto.
A inversão que funcionou
Ao invés de começar pela ferramenta, comecei pelo problema. A primeira aula inteira responde uma pergunta: por que projetos dão errado?
Peço para cada aluno contar uma situação onde algo saiu do controle, uma mudança, uma reforma da casa, organizar um evento de família. A partir dessas histórias reais, introduzo os conceitos de escopo, prazo e custo sem nenhuma terminologia técnica.
Só na segunda aula o MS Project entra em cena. E quando abro a ferramenta, os alunos já sabem o porquê de cada campo que estão preenchendo.
Três princípios que aplico em toda aula
Conceito antes da ferramenta. Nenhum recurso do MS Project é apresentado sem antes explicar o conceito de gestão de projetos que ele implementa. O aluno precisa saber o que é caminho crítico antes de ver a barra vermelha no Gantt.
Projeto fictício contínuo. A turma trabalha no mesmo projeto do início ao fim do curso. Cada aula avança o projeto, aplicando os conceitos novos. No final, cada aluno tem um cronograma completo que construiu do zero.
Errar na ferramenta é parte do processo. Deixo os alunos cometerem erros clássicos, como criar dependências circulares ou esquecer de atribuir recursos, e uso o erro como momento de ensino. O MS Project avisa quando algo está errado; ensinar a ler esses avisos é tão importante quanto ensinar a usar os menus.
O que isso me ensinou sobre ensinar
A maior lição não foi sobre MS Project. Foi sobre empatia cognitiva: a capacidade de lembrar como era não saber algo que hoje parece óbvio.
Quando você domina um assunto, é fácil pular etapas mentais que para o iniciante são abismos. “Crie uma EAP” pressupõe que o aluno sabe o que é EAP, por que ela existe, e como pensar hierarquicamente. Cada uma dessas é uma habilidade separada.
Essa consciência mudou não só minha forma de dar aula, mas também como explico decisões técnicas no trabalho. Se consigo explicar uma arquitetura para quem não é de TI, consigo explicar para qualquer um.