Quando alguém descobre que estou há mais de 17 anos na mesma empresa, a reação mais comum é um misto de surpresa e curiosidade. Em um mercado onde trocar de emprego a cada 2 ou 3 anos virou quase norma, a pergunta inevitável é: “você nunca quis sair?”
A resposta honesta é: sim, mais de uma vez.
Os momentos de dúvida
Houve fases em que senti que estava estagnado. Projetos repetitivos, tecnologias que não evoluíam, aquela sensação de que o mundo lá fora estava andando mais rápido. Nesses momentos, fiz o que qualquer profissional deveria fazer: atualizei o currículo, conversei com recrutadores, avaliei propostas.
Mas antes de tomar qualquer decisão, sempre me fiz três perguntas:
Estou aprendendo algo novo? Não precisa ser uma tecnologia revolucionária. Pode ser um novo domínio de negócio, uma habilidade de liderança, uma forma diferente de resolver problemas.
Tenho autonomia para propor mudanças? Uma empresa que ouve é uma empresa onde vale a pena estar.
As pessoas ao meu redor me fazem crescer? Times medíocres normalizam a mediocridade. Times fortes puxam você para cima.
Quando pelo menos duas respostas eram “sim”, eu ficava.
O que me fez ficar
Três coisas, em ordem de importância.
A primeira foi a possibilidade de reinventar meu papel. Ao longo desses 17 anos, passei por desenvolvimento, análise de sistemas, arquitetura, auditoria de TI e liderança técnica. Cada transição foi, na prática, um emprego novo dentro da mesma empresa.
A segunda foi o tamanho e a complexidade dos desafios. Trabalhar em uma instituição de grande porte significa lidar com escala, compliance regulatório, segurança de dados sensíveis e integração de sistemas legados com tecnologias novas. Esse tipo de desafio existe em poucas empresas.
A terceira foi poder conciliar com a docência. A empresa sempre respeitou meu trabalho como professor, e essa combinação me mantém afiado em duas frentes: no corporativo, resolvo problemas reais; na sala de aula, sou obrigado a explicar o que faço de um jeito que qualquer pessoa entenda.
O que aprendi sobre longevidade
Ficar muito tempo em um lugar não é mérito nem defeito, é uma escolha que precisa ser reavaliada periodicamente. O perigo real não é ficar, é ficar no piloto automático.
Minha regra pessoal: todo ano, me pergunto se estou crescendo. Se a resposta for “não” por dois anos seguidos, é hora de mudar, de projeto, de área ou de empresa.
Até agora, sempre encontrei a mudança por dentro. Mas estou em paz com a possibilidade de um dia encontrá-la por fora.